Cadernos Espinosanos (E-Journal)
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The essence of truth according to Spinoza
Este artigo se contrapõe às leituras usuais da teoria da verdade de Spinoza. Como é bem sabido, Spinoza afirma que as propriedades da ideia verdadeira têm ou bem um caráter intrínseco ou bem um caráter extrínseco ao próprio ser dessa ideia. Geralmente, os comentadores aceitam que a verdade, no sistema spinozano, deve ser definida ou bem a partir de uma dessas propriedades, ou bem da conjunção de ambas, divergindo apenas a respeito de qual é a função e o peso relativo de cada uma na definição da verdade. Contra esse pressuposto partilhado pelos intérpretes, segundo o qual a definição da verdade deve ser construída a partir das propriedades da ideia verdadeira, mostrarei que uma tal premissa falseia a compreensão spinozana da verdade. Esse falseamento ocorre porque não leva em conta que uma doutrina central do pensamento de Spinoza é a que afirma que uma coisa qualquer não se define nunca por suas propriedades, mas, ao contrário, são essas últimas que devem ser deduzidas da essência da coisa, estabelecida previamente a elas.This article challenges the usual interpretations of Spinoza’s theory of truth. As is well known, Spinoza asserts that the properties of a true idea are either intrinsic or extrinsic to the being of that idea. Commentators generally accept that truth, in Spinoza’s system, must be defined either on the basis of one of these properties or on their conjunction, differing only in the function and relative importance attributed to each in the definition of truth. Against this assumption shared by interpreters, according to which the definition of truth must be constructed out of the properties of the true idea, I will show that such a premise distorts Spinoza’s understanding of truth. This distortion occurs because it does not take into account that a central doctrine of Spinoza’s thought is that a thing is never defined by its properties, but rather that the latter must be deduced from the essence of the thing, which is established prior to them
Leibniz e o corpo: um problema apenas metafísico?
Nosso trabalho tem como objetivo fundamentar a hipótese de que o problema do estatuto ontológico dos corpos, em particular a questão da substância composta, não foi apenas um problema decorrente da metafísica de Leibniz, mas também pode estar relacionado a debates teológicos e políticos nos quais o filósofo esteve envolvido. Para isso, nossa análise se concentra em dois diálogos específicos: a correspondência com padre Des Bosses e a negociação de reunificação entre as igrejas católica e protestante da Europa. A ideia é indicar que o conceito de vínculo substancial, desenvolvido por Leibniz nas cartas a Des Bosses em resposta ao problema do corpo e da Eucaristia, não expressa apenas a tentativa de resolver um entrave lógico decorrente da doutrina das mônadas, pois a elaboração do conceito faria parte, também, de um esforço de explicar racionalmente um mistério religioso que era fundamental no cisma entre cristãos. Para nós, essa abordagem pode ampliar a compreensão e o alcance do pensamento de Leibniz, já que propõe dar visibilidade a um tema e um conceito que tradicionalmente não são classificados como “filosóficos”.Our work aims to support the hypothesis that the problem of the ontological status of bodies, particularly the issue of composite substance, was not merely a problem arising from Leibniz\u27s metaphysics but may also be related to theological and political debates in which the philosopher was involved. To this end, our analysis focuses on two specific dialogues: the correspondence with Father Des Bosses and the negotiation for the reunification between the Catholic and Protestant churches of Europe. The idea is to indicate that the concept of substantial bond, developed by Leibniz in the letters to Des Bosses in response to the problem of body and Eucharist, does not only express an attempt to resolve a logical obstacle arising from the doctrine of monads, for the development of the concept would, in addition, be part of an effort to explain rationally a religious mystery that was fundamental in the schism among Christians. For us, this approach can broaden the understanding and scope of Leibniz\u27s thought, as it proposes to shed light on a theme and a concept that are traditionally not classified as "philosophical"
Signs and Steps
Resenha de: Ramos, Silvana de Souza. (2024) Ensaios sobre democracia: descrições de um corpo despedaçado. São Paulo: Editora Filosófica Politeia.
What is the nature of the cartesian morality?
In this article, we aim to establish a connection between certain aspects of Descartes’s ethics — particularly the concept of virtue — and the Petrine tradition, that is, the moral and religious precepts prescribed by the Apostle Simon Peter. To this end, we undertake a comparative study between Descartes’s letter to Elisabeth dated August 4, 1645, and the first chapter of the Second Epistle of Saint Peter. We argue for the hypothesisthat a direct comparison between the two texts allows us to identify, in both Descartes and Peter, theoretical and conceptual elements of a similar nature concerning the nature of a virtuous life, since both associated virtuewith knowledge, constancy, and self-mastery. In defending this hypothesis, we align ourselves with the interpretive approach proposed by Jean Laporte (2000), one of Descartes’s canonical commentators, who envisioned the possibility of reconciling Cartesian morality with Christianity.Neste artigo, dedicamo-nos a estabelecer uma relação entre determinados aspectos da ética de Descartes, notadamente o conceito de virtude, e a tradição petrina, isto é, os preceitos morais e religiosos prescritos pelo apóstolo Simão Pedro. Para tanto, realizaremos um estudo comparativo entre a carta de Descartes a Elisabeth de 4 de agosto de 1645 e o capítulo primeiro da Segunda epístola de São Pedro. Argumentaremos a favor da hipótese de que um confronto direto entre ambos os textos nos permite identificar, seja em Descartes ou em Pedro, elementos teórico-conceituais de cunho semelhante no que diz respeito à natureza de uma vida virtuosa,pois tanto um quanto o outro relacionaram a virtude ao conhecimento, à constância e ao autodomínio. Ao defendermos tal hipótese, nos inserimos na linha interpretativa proposta por Jean Laporte (2000), um dos comentadores canônicos de Descartes que vislumbrou a possibilidade de compatibilizar a moral cartesiana e o cristianismo
Considerations on the Doctrine of a One Universal Spirit - G. W. Leibniz
As Considerações acerca da doutrina de um Espírito Único Universal, escritas à Sofia Carlota, são um texto no qual constam diversos argumentos de Leibniz contra o panteísmo, doutrinas pananimistas, e o monopsiquismo. Trata-se de parte do debate entre Leibniz e John Toland que era fomentado pela rainha. O tema parece, a princípio, suis generis no contexto da correspondência. Na verdade, além dos assuntos das cortes, muito mais é discutido sobre a natureza dos sentidos e das ideias do que o tema da unidade das almas, ou da mortalidade das almas. Mas do tema das ideias e da mente humana pareceu ter se seguido divergências sobre a imortalidade e individualidade da alma, e sobre as posições antigas e escolástica sobre a possibilidade da subsistência de almas completamente separadas de corpos.
Em 1702, Toland visitou a Alemanha e foi recebido pela rainha Sofia que, em algum momento, mostrou-lhe a carta que Leibniz escreveu a ela no mesmo ano, conhecida como a Lettre touchant ce qui est independant des Sens e de la Matiere (Leibniz, 1978, G VI, 499f), Toland, por sua vez, redigiu outra carta a (Leibniz, 1978, G VI, 508f ) à rainha, que a repassou a Leibniz. Ao final de sua réplica, Leibniz (1978, G VI, 514f.) escreveu um adendo sobre a questão do Espírito Universal, que até então não havia sido mencionada, provavelmente provocada como resposta ao suposto panteísmo de Toland. Este breve pós-escrito foi expandido, a pedido da rainha, no que se tornaram as Considerações aqui traduzidas.
A seguinte tradução foi produzida a partir da transcrição encontrada em Die Philosphiscen Schriften, de Gerhardt (G VI, p.529f.), com consultas ao manuscrito digitalizado na Gottfried Wilhelm Leibniz Bibliothek (LH 4, 1, 12). Incluo no texto as rasuras com algum conteúdo relevante, ausentes na transcrição de Gerhardt
To know that one imagines, to imagine that one knows: considerations on Book II of Spinoza’s Ethics
Imagination, as a form of knowledge, plays a crucial role in Spinoza’s philosophy, particularly as articulated in Book II of Ethics. This book explores the genesis of imagination and its intricate relationships with ideas, bodily affection, inadequate knowledge and adequacy. In this article, we delve into the implications of Spinoza’s formulation of imagination in Ethics, highlighting its nature as a necessary genre of knowledge. In analyzing Book II, we intend to outline how imagination becomes a crucial form of knowledge in view of its structuring relationships rooted in bodily experiences. Consequently, this knowledge is inherently directed toward the singular, especially with regard to one’s own body and imaginative ideas.A imaginação, como forma de conhecimento, desempenha um papel crucial na filosofia de Espinosa, particularmente articulada no Livro II da Ética. Este livro explora a gênese da imaginação e suas intrincadas relações com ideias, afecções corporais, conhecimento inadequado e adequação. Neste artigo, aprofundamos as implicações da formulação da imaginação de Espinosa na Ética, destacando sua natureza como um gênero de conhecimento necessário. Ao analisar o Livro II, pretendemos delinear como a imaginação se torna uma forma crucial de conhecimento tendo em vista suas relações estruturantes enraizadas nas experiências corporais. Consequentemente, esse conhecimento é inerentemente direcionado para o singular, especialmente no que diz respeito ao próprio corpo e às ideias imaginativas
The dionysian Leibniz of Gilles Deleuze
A interpretação deleuziana de Leibniz, mais conhecida pelo seu comentário a este em A Dobra (1995), tem suas principais premissas já delineadas em Diferença e Repetição (1968). Visando constituir uma filosofia da diferença, Deleuze questiona a fundamentação do Princípio de Razão Suficiente sobre o Princípio de Identidade. Isso leva a uma interpretação bastante heterodoxa de Leibniz que aparenta este a Nietzsche. Leibniz aparece como o pensador dionisíaco e obscuro de um racionalismo sui generis. Visamos explicar essa interpretação a partir da compreensão do projeto da filosofia da diferencia como a exigência de uma crítica radical do fundamento que conduz a um ao afundamento universal, à desrazão, ao sem-fundo. Neste quadro, torna-se necessário compreender a afinidade entre Leibniz e Nietzsche, sendo este aquele em que Deleuze encontra a “verdadeira razão suficiente”.Deleuze\u27s interpretation of Leibniz, best known for his commentary on Leibniz in The Fold (1995), has its main premises already outlined in Difference and Repetition (1968). Aiming to constitute a philosophy of difference, Deleuze questions the foundation of the Principle of Sufficient Reason on the Principle of Identity. This leads to a rather heterodox interpretation of Leibniz, that brings him closer to Nietzsche. Leibniz appears as the obscure, Dionysian thinker of a sui generis rationalism. We aim to explain this interpretation through a consideration of the project of the philosophy of difference as the demand for a radical critique of the foundation that leads to to unreason and to universal groundlessness. In this context, it is necessary to understand the affinity between Leibniz and Nietzsche, the latter being the one in whom Deleuze finds the "true sufficient reason"
Law and education: In defense of freedom
O presente artigo visa argumentar que a lei e a educação, em John Locke, em alguma medida se complementam para ceifar a possibilidade de opressão, objetivando garantir a liberdade política dos indivíduos contra a dominação. Para efetivar esse objetivo, duas obras serão fundamentais: o Segundo tratado sobre o governo e Alguns pensamentos sobre a educação. Com base na primeira, buscaremos analisar as circunstâncias que resultaram na renúncia da liberdade por parte dos indivíduos, para associarem-se em sociedade sob a proteção da lei o que implica a necessidade de examinar o estado de natureza e o estado de guerra; na segunda, buscamos investigar a preocupação empregada pelo inglês no cuidado para que as crianças não se tornem opressoras. Com isso, esperamos contribuir com os futuros pesquisadores do pensamento político e educacional de Locke, de modo a demonstrar um possível meio de relacionar esses dois aspectos da filosofia do pensador inglês.This article aims to argue that law and education, in John Locke, to some extent complement each other in order to remove the possibility of oppression, with the aim of guaranteeing the political freedom of individuals against domination. To achieve this goal, two works will be fundamental: The Second Treatise on Government and Some Thoughts on Education. Based on the former, we will seek to analyze the circumstances that resulted in individuals renouncing their freedom in order to associate in society under the protection of the law - which implies the need to examine the state of nature and the state of war; in the latter, we will seek to investigate Locke\u27s concern that children do not become oppressors. With this, we hope to contribute to the work of future researchers of Locke\u27s political and educational thought, in order to demonstrate a possible way of relating these two aspects of the English thinker\u27s philosophy
Spinoza and Blyenbergh: between the semantics of friendship and the one of evil
Born as a promising beginning of a friendship formed between two lovers of truth, the correspondence between Spinoza and Blyenbergh turned out to be a real disappointment. Because they knew the truth through different paths, in the languages of Spinoza and Blyenbergh, the words God and evil, which underpin the entire problem of the correspondence, could only mean completely different things. Although both agreed that God is supremely perfect and the cause of all things, Blyenbergh conceived that men and women could go against God, saddening him to the point of punishing them for it, Spinoza, on the other hand, understood that God is nothing but absolute perfection. While one conceived evil as a deprivation of good, for the other, it is nothingness. For this reason, Spinoza and Blyenbergh could never communicate with each other using the language of philosophers, a necessary condition for uniting themselves for the love of truth. Nascida como um promissor início de amizade entre dois amantes da verdade, a correspondência entre Espinosa e Blyenbergh revelou-se uma verdadeira desilusão. Por conhecerem a verdade por caminhos diversos, nas línguas de Espinosa e de Blyenbergh, as palavras Deus e mal, que sustentam toda a problemática da correspondência, só poderiam significar coisas completamente diferentes. Apesar de ambos concordarem que Deus é sumamente perfeito e a causa de todas as coisas, enquanto um concebia que homens e mulheres poderiam contrariá-lo, entristecendo-o a ponto de puni-los por isso, o outro compreendia que Deus não é senão perfeição absoluta. Enquanto um concebia o mal como uma privação do bem, para o outro, ele nada é. Por isso mesmo, Espinosa e Blyenbergh jamais poderiam comunicar-se entre si pela linguagem dos filósofos, condição necessária para unirem-se pelo amor à verdade