Vim de longe para tocar o fogo: Macau na poesia de Eugénio de Andrade

Abstract

Eugénio de Andrade (Fundão, 1923 – Porto, 2005) produced a significant body of poetic work in which the East occupies a central and evocative role – particularly after his visit to Macau in 1990. Under the pretext of attending an exhibition of portraits of himself painted by Portuguese artists, Andrade composed Pequeno Caderno do Oriente (Little Notebook of the Orient), a hybrid collection of poems, poetic prose, and notes. This volume reveals both his profound fascination with the East and his enduring admiration for Camilo Pessanha, the foremost Portuguese Symbolist poet and a long-time resident of Macau. This essay proceeds from the premise that Andrade’s engagement with Eastern motifs is inseparable from Pessanha’s influence. Just as Clepsidra (1920) reflects an aesthetic inflected by Chinese literary sensibilities through the prism of Verlaine-inspired Symbolism, Andrade similarly draws upon Eastern imagery, tonalities, chromatic impressions, and rhythmic structures to shape his lyrical expression. Despite being situated in distinct historical contexts, both poets use lyricism and essayistic meditation as vehicles for a sustained intercultural dialogue between Portuguese and Chinese literary traditions. The present analysis pursues three interrelated aims: (1) To examine the reasons why Andrade considers Pessanha a model of “high poetic asceticism”; (2) To identify thematic, lexical, sonic, and rhythmic convergences between their respective oeuvres, illuminating a shared aesthetic lineage; (3) To explore how the twelve poems of Pequeno Caderno do Oriente articulate a lyrical ecology – a culture of Nature – that resonates with motifs found throughout Andrade’s broader poetic corpus.This lyrical sensitivity culminates in the symbolic image of bamboo as a site of introspection and permanence: “From this garden I carry within me / a branch of bamboo to serve / as a mirror for the rest of my days” a distilled emblem of contemplation and the enduring presence of poetic memory.Eugénio de Andrade (Fundão, 1923 – Porto, 2005) construiu uma vasta obra poética, na qual o Oriente assume um papel de destaque, especialmente após a sua visita a Macau, em 1990. A pretexto de conhecer uma coleção de retratos seus elaborados por artistas portugueses, o poeta produziu o Pequeno Caderno do Oriente, conjunto de poemas, prosas poéticas e apontamentos que refletem tanto o fascínio pelo Oriente quanto a profunda admiração por Camilo Pessanha, figura maior do Simbolismo português e residente de longa data em Macau. Este ensaio parte da premissa de que o fascínio de Eugénio pelo Oriente é indissociável da influência de Pessanha. Tal como Clepsidra (1920) revela a receção da literatura chinesa através de um simbolismo de feição verlainiana, também Eugénio de Andrade mobiliza imagens, sons, cores e ritmos orientais para estruturar a sua expressão lírica. Ambos os autores, em momentos históricos distintos, utilizam a poesia e a reflexão ensaística como meios de diálogo entre as culturas literárias portuguesa e chinesa. A análise apresenta três objetivos principais: (1) compreender as razões pelas quais Eugénio considera Pessanha um modelo de “alta ascese poética”; (2) identificar convergências temáticas, vocabulares, sonoras e rítmicas entre os dois poetas, evidenciando uma herança estética comum; (3) destacar, nos 12 poemas de Pequeno Caderno do Oriente, a construção de uma cultura da Natureza, reveladora de uma sensibilidade lírica dialogante com outras obras de Eugénio. Tal sensibilidade atinge o seu ápice na imagem simbólica do bambu, enquanto espelho íntimo: “Deste jardim que levo comigo / é um ramo de bambu para servir / de espelho ao resto dos meus dias”, epítome da contemplação e da permanência da memória poética

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Last time updated on 02/03/2026

This paper was published in PROA-UA (Univ. de Aveiro).

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