Os estudos de opinião pública oferecem uma imagem que aspira a ser representativa da sociedade. Uma imagem espelhada que refletiria de forma agregada tanto os valores como os comportamentos ou preferências das pessoas. A questão-chave surge quando os procedimentos metodológicos ou técnicos utilizados para produzir esse conhecimento distorcem a realidade. No caso das sondagens de opinião, os enviesamentos amostrais causados pela não resposta total ou parcial são bem conhecidos. As sondagens apenas mostram a opinião das subpopulações que lhes respondem, pelo que a representação é sempre parcial e incompleta. Aspetos como problemas percebidos na sociedade, satisfação com a democracia ou políticas públicas preferidas são condicionados populacional e cognitivamente. Um caso especial da construção da realidade é aquele que vem do uso de artefatos analíticos. Construções teóricas e operacionais que distorcem a expressão demoscópica da sociedade. Esta pesquisa investiga os efeitos de distorção de um artefato analítico específico: a construção da memória de voto no censo. Para tal, são utilizados os barómetros da CEI e os resultados oficiais das eleições gerais de julho de 2023; Mostra que a sobrestimação sistemática da participação eleitoral – combinada com uma recolha de votos relativamente estável – produz uma imagem artificial e falsa do apoio eleitoral expresso no recenseamento. Este fenómeno afeta de forma desigual os partidos e as ideologias que representam. Identifica-se uma dimensão ideológica de viés, revelando que o bloco progressista é prejudicado por essa interação metodológica para fins de ponderação nos modelos de Neumann aplicados ao censo. Deve-se notar também que, quando variáveis tendenciosas (artefatos analíticos) são usadas como critérios de ponderação paramétrica, o viés ideológico não só não é corrigido, como se expande para todo o questionário, afetando tanto as distribuições de frequência (estado de opinião) quanto as relações entre variáveis (padrão estrutural), comprometendo a validade dos resultados. Além da análise empírica, propõe-se um referencial teórico voltado para a reflexividade metodológica, alertando para os riscos da naturalização de artefatos estatísticos que são, na realidade, construções lógicas derivadas de operações técnicas por vezes tendenciosas. O artigo conclui com recomendações destinadas a evitar o uso acrítico de variáveis contaminadas no ajuste de amostras. Sublinha-se a necessidade de corrigir estes artefactos analíticos para preservar tanto a qualidade do conhecimento empírico como a sua utilidade democrática
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