O modelo de levantamento das características que, em princípio, caracterizam a arte, em geral, e a música, em particular, assume, quase sempre, a forma de uma reductio. Se retirarmos todas as características que são comuns quer aos objectos de arte quer aos objectos comuns, com o objectivo de retermos apenas aquelas que serão necessárias e conjuntamente suficientes para definir a obra de arte acabamos, invariavelmente, com um resquício de qualidades, que se tornam clássicas candidatas ao lugar de “essência” do fenómeno artístico. Entre elas, provavelmente a mais insistente de todas, encontra-se a representação. Este texto não trata, directamente, da velha questão da representação em música. Pretende-se, antes, analisar o modo como a constatação de representações altera a experiência estética de uma peça musical. Ou seja, vamos deixar de parte a questão de saber se a representação é uma condição necessária do objecto artístico musical e deixaremos em aberto a hipótese, também plausível de uma forma clássica, da existência de música sem qualidades representacionais ou, ainda, a tese mais extrema segundo a qual existirá um antagonismo básico entre uma devida e estrita experiência estética musical e a consideração de supostas representações em música. Mas vamos admitir que há representações que são de tal modo supervenientes a determinadas experiências musicais que integram e condicionam a própria percepção da forma musical. Não queremos com isto arriscar no sentido de defender a tese segundo a qual toda a experiência estética musical envolve a consideração de representações. Mas interessa-nos averiguar a natureza, pace Eduard Hanslick, de uma sub-classe de experiências musicais que envolvem, necessariamente, representações.info:eu-repo/semantics/publishedVersio