Universidade do Minho. Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS)
Abstract
É provável que quando Walter Benjamin (2012, p. 97) invocou a bruma
que paira sob os primeiros anos da história da fotografia, o filósofo
alemão não se referisse apenas à imprecisão com que os seus historiadores
se confrontavam, mas também ao spleen, essa espécie de melancolia
sombria imortalizada por Charles Baudelaire, que perseguiu igualmente
os primeiros pensadores do meio fotográfico. Com efeito, o tom cinzento
das primeiras provas fotográficas parece ter tingido o estado de alma de
quem ao longo do séc. XX se dedicou a refletir sobre a fotografia. Uma
atmosfera de mal-estar e um sentimento de crise envolvem o pensamento
em torno da fotografia, que adquire assim um pendor progressivamente
“disfórico”, conforme perspetiva Margarida Medeiros em Fotografia e Verdade:
uma história de fantasmas (2010, p. 18). É num contexto negativo,
que contrasta substancialmente com a situação de entusiasmo inicial e
de fervor positivista com que foi recebida a invenção da fotografia, que se
inscreve o mais imediato parentesco entre a fotografia e a ideia de morte.
Podemos afirmar que, no que diz respeito às perspetivas teóricas, até mesmo
na sua aurora, a fotografia é, desde logo, percebida como “arte crepuscular”
(Sontag, 2008, p. 15)