Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação (BOCC)
Abstract
(Excerto) Todos os anos, numa aldeia dos arredores do Porto (Portugal), se celebra, em dia de
S. João, uma festa que encena e actualiza a luta entre cristãos (bugios) e mouros Mourisqueiros),
em disputa por uma imagem milagrosa do dito santo. É a festa da Bugiada. A narrativa que o acto festivo evoca corre de boca em boca e de geração em geração, já que não há documentos escritos. Os
bugios, mascarados, empenachados e foliões são temporariamente vencidos pelos adversários,
jovens aprumados, de barretina espelhada na cabeça, mas acabam por vencer a contenda, recorrendo a uma enorme e tenebrosa Serpe. Nos interstícios das danças e das lutas, ocorrem diversos rituais e facécias
(lavra da praça, dança do sapateiro e sketches de crítica social). Numa terra que viveu outrora
da agricultura, mas que se industrializou e tercearizou, a festividade tem revelado um vigor que não dá sinais de esmorecer. Nos últimos anos, ultrapassa o milhar o número de intervenientes directos e indirectos,
e a comunidade local tem conseguido evitar a ‘domesticação’ de um acontecimento cíclico marcado pelo lado subversivo, lúdico, excessivo