research

A publicidade exterior e uma nova «cultura de superfície». Por entre a paisagem urbana, à deriva…

Abstract

Actualmente, a percepção de uma paisagem em permanente mudança, constituída por um fluxo incessante de signos e imagens, produz em nós um intenso efeito esteticizante. O que quer dizer que somos quotidianamente confrontados com uma paisagem que nos convida ao sonho e à desrealização do real. As imagens publicitárias outdoors entretecem-se na superfície dessa mesma paisagem, emprestando ao espaço do visível um novo papel: a veiculação de uma cultura de consumo sedenta de Novidade e, simultaneamente, empenhada na diluição de fronteiras entre a arte e a vida comum de todos os dias. Cuidadosamente embaladas, assim como outras quaisquer mercadorias, as cidades revestem-se, hoje, de inúmeras superfícies sígnicas - inseridas sob a forma de lonas, painéis e todo o tipo de mobiliário urbano -, as quais servem de suporte, nomeadamente, à construção de uma imagem que importa capitalizar. Isto é, inscritos numa rede global, os centros urbanos (e sobretudo as grandes metrópoles), concorrenciais entre si, encontram na publicidade outdoors um meio eficaz de produção de uma mais-valia simbólica ou de um determinado valor de diferenciação. Aos investimentos arquitectónicos e de planeamento, com os quais se procura responder aos imperativos da modernidade, soma-se a transformação da paisagem em produto cultural, uma vez apresentada enquanto cenário de um espectáculo, surpreendente a todo o instante, feito de intensas sensações e estímulos ao olhar. Contudo, à ordem subjacente a uma tal superfície do visível, justapõe-se a experiência individual de percepção da paisagem, entre-aberta à deriva, à memória e ao imaginário. O que significa que à estratégia de homogeneização, do ser e do sentir em comum, escapam outras paisagens, os modos particulares e intersticiais de interagir com as cores, as formas, as imagens e os lugares aí evocados. Ao tempo veloz que urge acompanhar, e que se faz desde logo evidente na frenética renovação da paisagem, a cada instante, justapõe-se a experiência do tempo vivido, o tempo do quotidiano, tempo repetitivo, entediante e percebido na sua mesmidade. Assim, é no quadro de determinados intervalos de tempo, tempo assíncrono, que a paisagem, embora composta para o olhar comum, se oferece aos percursos labirínticos de um certo devaneio. E por entre a ordem e a cultura dominantes, orientadas no sentido da esteticização e da inscrição da paisagem no sistema de troca simbólica, irrompe o tempo arquetipal e a experiência de participação numa espécie de sensologia universal que apela em nós, paradoxalmente, para o desejo de indiferenciação. A publicidade outdoors, participando da paisagem urbana, constitui-se na coabitação entre uma “nova cultura”, o imaginário e a experiência sensível do quotidiano. Assim sendo, é nosso propósito reflectir sobre a percepção da paisagem, à qual a publicidade empresta o seu próprio efeito de permanente renovação, inscrevendo-se numa determinada cultura de consumo de massas, ávida por todo o tipo de produtos profusamente oferecidos ao olhar. Além de vocacionada para a promoção do consumo propriamente dito, dando a conhecer aos consumidores a oferta disponível no mercado, a publicidade outdoors é em si mesma um produto cultural, consumida no quadro da diluição de fronteiras, entre arte e vida quotidiana, que caracteriza a pós-modernidade

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