Tese de doutoramento em Ciências Empresariais (organização e políticas empresariais)A partir de uma perspectiva feminista pós-moderna, a tese apresentada procura reflectir
sobre a tensão entre os processos de permanência e mudança nas performatividades de género
no contexto do empresariado. Dar conta desta tensão significa reconhecer a ambivalência que
intrinsecamente constitui os sujeitos genderizados e através dela o modo como estes participam
socialmente nas várias (des)conexões e posicionalidades sócio-simbólicas, reproduzindo e/ou
resistindo, de forma não oposicional ou reflexiva, a uma visão dual e essencialista do género.
É então enquadrada por uma versão teórica do género como um fazer e do
empresariado como um modo de fazer género pelo masculino que reflicto sobre a presença dual
vivenciada pelas mulheres enquanto empresárias, a qual as força a gerir diferentes e
contraditórios territórios de construção de sentido: aquele associado ao que significa ser mulher
e um outro que define o sujeito empresarial como masculino.
Através dos testemunhos discursivos de um grupo de 52 empresárias de pequenas e
médias empresas da região norte, procuro interpretar aquela tensão tomando como lugar
conceptual de análise as subjectividades discursivas empresariais das participantes. Neste
sentido, foram realizados lugares de encontro sob a forma de entrevistas e de grupos de foco
onde as participantes partilharam as suas narrativas, dando conta dos modos diversos e
contraditórios de fazer género e empresariado. Suportada por uma bricolage analítica discursiva,
a tensão entre conformação e resistência gerada no processo de construção das subjectividades
genderizadas empresariais é interpretada através de diferentes estratégias (visibilidade e
invisibilidade) e posicionalidades (margem e centro) na sua relação com os discursos de género
e empresariado. Estratégias essas que são articuladas com dois temas principais: os discursos
de empresariado e a construção discursiva do sujeito empresária; e as metamorfoses nas
trajectórias profissionais e (extra)organizacionais das empresárias a partir de diferentes
dimensões temporais, espaciais e relacionais.
É, então, alicerçada nas ambiguidades e contradições inerentes às performatividades das empresárias que intento desnaturalizar as relações genderizadas geradoras de opressão, diminuição e discriminação de subjectividades que não correspondam a uma certa
masculinidade empresarial dominante. Procuro deste modo desestabilizar o poder da “estória
única” do empresariado e do género. Fazê-lo permite contribuir para uma versão do
empresariado como construção sociocultural indissociável da desconstrução das escalas de
autenticidade de quem deve ser interpetado como sujeito empresarial e, ainda, repensar as
políticas de apoio ao empresariado e a investigação nesta área de conhecimento dos estudos
organizacionais.Based on a post-modern feminist perspective, this dissertation aims at reflecting upon
the tension in the processes of change and persistence in gender performativities in the
corporate context. In order to account for this tension, it is vital to recognise the ambivalence that
intrinsically constitutes gendered subjects. It is through this ambivalence that the way in which
those subjects participate in various (dis)connections and social symbolic positionalities can be
foreseen, by reproducing and/or resisting, in a non-oppositional or reflexive way, to a double,
essentialist gender perspective.
Framed by a theoretical perspective of gender as something we do and entrepreneurship
as a masculine way of doing gender, this dissertation provides a reflection on the double
presence lived by women as entrepreneurs, which forces them to manage different and
contradictory meaning-making territories: one related to what it means to be a woman, and the
other defining the corporate subject as masculine.
Based on discursive testimonials of a group of 52 women entrepreneurs of small and
medium corporations of Northern Portugal, I aim to interpret that tension, taking the corporate
discursive subjectivities of the participants as a conceptual place of analysis. To that purpose,
interviews and focus groups were conducted. Participants shared their narratives and accounted
for the diverse and contradictory ways of doing gender and entrepreneurship. Based on an
analytical discursive ‘bricolage’, the tension between conformity and resistance in the
construction process of gendered subjectivities is interpreted through different strategies (visibility
and invisibility) and positionalities (margin and centre) in their relation with discourses of gender
and entrepreneurship. These strategies are articulated with two main themes: management
discourses and the construction of the women manager subject; and the metamorphoses in their
professional and (extra)organisational trajectories of entrepreneur women, based on different
temporal, spatial and relational dimensions.
Grounded on the ambiguities and contradictions inherent to the performativities of
women entrepreneurs, it is aimed to denaturalise gendered relations that create oppression, lessening and discrimination of subjectivities that do not correspond to a certain dominant
masculine entrepreneurship. Therefore, it seeks to denaturalise the power of the gender and
entrepreneurship single, mainstream narrative. This allows for a contribution to a perspective of
entrepreneurship as a social construction that cannot be dissociated from authenticity scales of
who should be seen as an entrepreneur, as well as to a new way of thinking about politics of
supporting entrepreneurship and research in the area of organisational studies