Tese de Mestrado em Psicologia - Área de Especialização em Psicologia ClínicaA linguagem e a narrativa têm sido alvo de um crescente interesse no estudo dos fenómenos
psicológicos e no desenvolvimento de práticas terapêuticas. Baseando-nos no pressuposto de que
significamos o mundo e a experiência discursivamente, a narrativa funciona como um organizador da
dimensão caótica da experiência. Actualmente, conceptualiza-se que a riqueza narrativa está associada a
níveis de bem-estar psicológico mais elevados e que, ao disfuncionamento psicológico, correspondem
formas mais pobres ou rígidas de produção narrativa. Diversas investigações sobre o desenvolvimento
narrativo têm vincado, ainda, a marcada evolução a que se assiste a este nível desde a infância até à
idade adulta para formas cada vez mais ricas de organização e significação da experiência. Nesse
sentido, acreditamos ser fundamental dar particular atenção à compreensão da organização narrativa,
pelo que, com a presente investigação pretendemos contribuir para a compreensão da produção
narrativa em adultos, como esta evolui desde a infância até à vida adulta e, ainda, de que forma se
distingue das narrativas de sujeitos com perturbação psicológica. Assim, analisámos as narrativas de 126
adultos sem perturbação psicológica, com idades compreendidas entre os 20 e os 45 anos, do sexo
feminino e masculino e com níveis sócio-culturais (NSC) distintos, quanto às suas três dimensões
centrais, Estrutura, Processo e Conteúdo, através da metodologia desenvolvida por Gonçalves, Henriques
e colaboradores. Os objectivos do presente estudo são: a) analisar a organização narrativa de adultos
quanto à coerência Estrutural, complexidade de Processo e diversidade de Conteúdo, bem como a
influência da idade, NSC e sexo; b) analisar de que forma as narrativas destes adultos diferem das
narrativas de adultos com diagnóstico psicopatológico, nomeadamente de agorafobia e de dependência
de opiáceos; c) traçar a tendência evolutiva do desenvolvimento narrativo ao nível da Estrutura, Processo
e Conteúdo desde a infância até à idade adulta. Observámos que os adultos sem psicopatologia
constroem narrativas com uma boa coerência Estrutural e uma boa diversidade de Conteúdo, embora
apresentem uma complexidade de Processo mais pobre. Verificou-se, ainda, que o sexo e a idade não
determinaram qualquer diferença na produção narrativa, embora o número de anos de estudo revele
influenciar positivamente a riqueza narrativa. Quanto à comparação com os sujeitos com diagnóstico
clínico, encontrámos, no geral, narrativas mais ricas para os adultos sem perturbação psicológica. Por
fim, a observação da produção narrativa ao longo da vida sugere uma tendência evolutiva: da diversidade
de Conteúdo sobretudo ao longo da infância, com um ligeiro aumento no final da adolescência; da
complexidade de Processo desde a infância até ao final da adolescência e da coerência Estrutural ao
longo dos 45 anos estudados, mais denunciada até ao início da idade adulta – 20-25 anos – altura a
partir da qual parece haver uma estabilização até aos 45 anos de idade.Language and narrative have been used in the study of psychological phenomena and in the
development of therapeutic practice with increasing interest. Bearing in mind the fact that we mean the
world and experience discursively, narrative works as an organizer of the chaotic dimension of experience.
Currently it is conceptualized that a rich narrative is associated with psychological well-being and that
psychological dysfunction corresponds to poor or rigid forms of narrative production. Several researches
about narrative development point out the marked evolution since infancy until adulthood into richer forms
of experience organization and meaning. Recognising thus the importance of narrative organization, the
present study intends to contribute for its understanding in adults, its development since childhood and
still the distinction between the narratives of a healthy adult and of a psychological disturbed one. For
these purposes, we analyzed the narratives of 126 adults without psychological disturbances, aged
between 20 and 45, from both sexes and from distinctive layers of society in its three central dimensions:
Structure, Process and Content using the methodology developed by Gonçalves, Henriques and
collaborators. Our goals are: a) analyzing adult’s narrative organization as for its structural coherence,
complexity of process and diversity of content as well as the influence of age, sex and social-cultural level;
b) analyzing in which way the narratives of these adults differ from the ones of adults to whom
agoraphobia and opiates dependence has been diagnosed; c) identifying the evolutional tendency of
narrative development in terms of Structure, Process and Content since infancy until adulthood. We were
able to observe that adults without psychological diagnosis construct narratives with good structural
coherence and good diversity of content but weaker complexity of process. Data also shows that sex and
age do not determine different narrative production, but the number of study years can positively influence
narrative act. Compared to subjects with clinical diagnosis, healthy adults tend to show richer narratives.
Finally, the observation of narrative production throughout the life course suggests: a tendency to improve
Content diversity mostly during infancy, with a slight increase towards the end of adolescence; to improve
Process complexity since infancy until the end of adolescence and to improve Structural coherence all
along the 45 studied years, with stronger incidence until the beginning of adulthood – 20-25 years old –
when it seems to stabilize until the age of 45