Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Direito
Doi
Abstract
Apesar de há muito ser ponto assente que as instituições carcerais do pós-guerra se abriram ao exterior de muitas maneiras - quer por via de uma maior subordinação a instâncias superiores de regulação do Estado, quer por via de um crescente fluxo de bens, serviços e comunicações entre o interior e o exterior -, e apesar de os estudos prisonais já não serem estruturados pelas noções de «sociedade/cultura prisional», nem por isso um tal universo deixou de ser pensado como «um mundo à parte», sendo nesta noção que continua a radicar o seu estatuto teórico. A razão porque assim é prende-se com o pressuposto de que os muros destas instituições separam os prisioneiros das suas relações exteriores, o que equivale a dizer, das suas relações anteriores. À luz deste hiato social elementar, a reclusão seria invariavelmente uma interrupção, uma realidade entre parêntesis. Este artigo questiona este pressuposto à luz de dados enográficos recentes resultantes de um trabalho de terreno numa prisão feminina.Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research