Prova tipográfica (In Press)Eduardo Lourenço vê-nos como “um povo de sonhadores” , Jorge Dias explicou pelo “temperamento paradoxal” a oscilação entre “períodos de grande apogeu e de grande decadência da história portuguesa” , enquanto Pascoais, optando por uma visão messiânica, descobre no sebastianismo o “futuro sol da Renascença” . O que importa perceber, porém, é até que ponto esta rede de discursos cruzados, que aqui apenas se aflora, continua a demarcar um território referencial, um fundo mítico, a que tantas vezes se recorre quando se trata de nos pensarmos enquanto portugueses.
O sucesso inesperado que a obra Portugal, hoje. O medo de existir alcançou recentemente, vem não só revelar um acentuado interesse pela questão da identidade nacional, como recolocar a problemática em termos renovados. Apesar de estar mais preocupado com a interpretação do presente e com a projecção de expectativas futuras do que com a evocação do passado, José Gil nem sempre escapa à armadilha essencialista. É que, pese embora o posicionamento crítico e a intenção desmistificadora, é ainda um Portugal inteiriço e uniforme aquele que nos é oferecido. Poderá, então, o paralisante medo de existir que o autor aponta, ser entendido como expressão renovada do primordialismo que guiou outros olhares?
A elaboração de narrativas acerca de identidades persistentes, que transcendem os circunstancialismos, constituirá o centro desta comunicação. Procurar-se-á uma leitura aberta, que procure dar conta da actualização dessas narrativas e do modo como elas continuam a encontrar espaços de circulação e aceitação. Tentaremos, através do confronto de diferentes quadros narrativos, mostrar como determinados efeitos retóricos e analíticos (de deslocamento, transmutação e máscara), permitem uma reinterpretação identitária, que continua a destacar e reificar o corpo nacional na sua coesão, singularidade e projecto