As últimas décadas do século XIX assistem ao aparecimento - paralelo ao desenvolvimento do sistema de formação de professores de instrução primária – de um novo artefacto – os manuais de pedagogia e didáctica -, que se transforma num importante instrumento de divulgação de novas ideias e de novas práticas de ensino, em contraponto às práticas consideradas tradicionais que o discurso pedagógico questiona em permanência. As primeiras décadas do século XX assistem ao prolongamento, ainda que irregular, desse movimento, designadamente durante o período republicano.
Ao acompanharmos os manuais de pedagogia e de didáctica ao longo de cerca de trinta anos, procuraremos captar o movimento das ideias inovadoras em educação ao longo desse percurso, designadamente as que advêm da moda do ensino intuitivo – de que as “lições de coisas” são expressão - e da afirmação dos chamados métodos activos, na busca dum aprofundamento da periodização da emergência, em Portugal, das ideias inovadoras (e das expressões que as procuram recobrir) e duma sistematização das práticas inovadoras que se pretendem generalizadas.
A nossa análise incidirá, por fim, sobre a imagem, o perfil, o papel e a actividade do professor de instrução primária tal como se expressam nos manuais seleccionados. Em que medida se sucedem (ou se combinam) aspectos que remetem para o entendimento do ofício como “arte” - e se enfatizam qualidades como a “vocação” e a “intuição pedagógica” – com os que resultam da afirmação do discurso científico em educação e do entendimento da actividade docente como uma profissão, detentora de um conjunto de técnicas que lhe são próprias e que são as adequadas ao desenvolvimento natural da criança?
Objecto material de grande importância no processo de construção de uma cultura escolar e de uma tecnologia de gestão da sala de aula e do colectivo de alunos – em que as noções de ordem e de método assumem uma enorme centralidade -, os manuais de pedagogia e didáctica foram, simultaneamente, instrumentos de inovação e de controlo, ao atribuírem legitimidade a um conjunto de ideias e de práticas (e retirarem a outras), ao mesmo tempo que apelavam à socialização e afirmação profissional dos futuros professores com base num conjunto em que se articulavam o saber, o saber-fazer e o saber-ser