Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
Abstract
Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de
Mestre em Antropologia - Área de especialização de Culturas em Cena e TurismoSingular e ecléctica figura de intelectual, Ernesto De Martino (1908-1965),
considerado o fundador da moderna antropologia cultural italiana, foi antropólogo, histórico
das religiões e folclorista. Embora a sua obra não seja ainda conhecida como mereceria fora
de Itália e França, nos últimos anos começou a ter uma crescente atenção crítica internacional,
e vários estudiosos têm-se empenhado em traduzi-la e divulgá-la nos seus próprios países.
No renovado interesse que De Martino tem suscitado nos últimos anos, grande parte
da atenção focaliza quer as suas escolhas temáticas, quer a abordagem teórica “eclética e
criativa” das suas análises. Na sua abordagem à lamentação funerária, à magia De Martino
mostra como as práticas mágicas baseadas em sistemas mítico-rituais estejam ligadas a
formas de resistência dos camponeses face à miséria que impera nas suas vidas, porque,
embora essas práticas continuem a perpetuar a sua condição de subalternidade, impedindo
uma desejável tomada de consciência sócio-política, ao mesmo tempo fornecem ao indivíduo
subalterno a ilusão de poderem controlar o seu próprio destino. São portanto práticas culturais
que procuram organizar de forma positiva os eventos considerados negativos ou agressivos da
vida e do universo.
Por outro lado, tem-se sublinhado como a sua reflexão teórico-metodológica seja
precursora de algumas temáticas e reflexões críticas importantes da antropologia
contemporânea. Ao inaugurar no âmbito europeu uma análise dos factos culturais nos termos de sistemas simbólicos historicamente e socialmente diferenciados (as práticas simbólicas),
isto é, utilizando um modelo interpretativo que privilegia as lógicas semânticas, introduziu, já
nos anos cinquenta, a dimensão do poder e antecipou nesse sentido os modelos interpretativos
post-estruturalistas que surgiram em França a partir da convergência entre antropologia e
sociologia, modelos que redescobriam as afinidades fundamentais entre o exercício do poder e o controlo das práticas simbólicas