Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, IP
Abstract
A vigilância da gripe em Portugal através do Programa
Nacional de Vigilância da Gripe permite
monitorizar, descrever a atividade gripal, detetar
e identificar os vírus da gripe em circulação. O
programa integra as componentes de vigilância
clínica e laboratorial. A componente clínica possibilita
o cálculo de taxas de incidência permitindo
descrever a intensidade e evolução da epidemia
no tempo. A componente virológica e laboratorial
tem por base o diagnóstico laboratorial do vírus
da gripe o que permite identificar e caraterizar os
vírus da gripe em circulação em cada inverno.
Durante o inverno 2017/2018, foi observada uma
atividade gripal de intensidade baixa a moderada.
O período epidémico ocorreu entre a semana
52/2017 (dezembro) e a semana 7/2018 (fevereiro)
e o valor mais elevado da taxa de incidência semanal
de síndrome gripal (78,8/105) ocorreu em
dezembro, na semana 52/2017.
O vírus da gripe foi detetado em co-circulação com
os outros vírus respiratórios. O vírus da gripe do
tipo B/Yamagata foi o predominante, tal como o
observado nos restantes países europeus. Em Portugal
foi identificado em 57,4% dos casos de gripe
confirmados laboratorialmente. Foram também detetados
em circulação, com menor frequência, os
vírus da gripe A(H1)pdm09, A(H3) e B/Victoria.
A caracterização genética demonstrou
que os vírus B/Yamagata pertenciam ao
clade 3 (representado pela estirpe vacinal
B/Phuket/30173/2013) e os vírus B/Victoria pertenciam
ao clade 1A (representados pela estirpe
vacinal B/Brisbane/60/2008, presente na vacina
trivalente 2017/2018). Cinco dos vírus B/Victoria
pertenciam ao novo subgrupo, que se distingue
da estirpe vacinal de 2017/2018, apresentando
uma deleção dos aminoácidos 162-163
no gene da hemaglutinina. Este novo grupo surgiu
em 2015/2016 e atualmente foi já detetado a
nível mundial. Os vírus da gripe A(H3) continuam
a apresentar uma grande diversidade genética.
Na época 2017/2018 os vírus deste subtipo
agruparam-se em 2 subgrupos genéticos:
3C.2a1b (A/England/74560298/2017) e 3C.2a2
(A/Norway/4465/2016). Os vírus A(H1)pdm09
pertenciam ao clade 6B.1, semelhantes à estirpe
vacinal A/Michigan/45/2015.
A avaliação da resistência aos antivirais inibidores
da neuraminidase, revelou uma susceptibilidade
normal dos vírus influenza A e B ao oseltamivir
e zanamivir, com excepção de um vírus do tipo
B/Yamagata que apresentou uma redução da
susceptibilidade a ambos os inibidores da neuraminidase.
Os vírus da gripe com diminuição da
susceptibilidade aos antivirais foram detetados
esporadicamente a nível europeu e mundial.
A percentagem mais elevada de casos de gripe
foi verificada nos indivíduos com idade inferior a
15 anos, no entanto devido ao número mais reduzido
de casos estudados nesta faixa etária esta
informação deverá ser analisada com cuidado. A
nível hospitalar, a maior percentagem de casos
de gripe foi também detetada no grupo das crianças
entre os 5 e os 14 anos. Foi nos doentes com
idade superior a 65 anos que se verificou a mais
elevada taxa de internamento hospitalar e em unidades
de cuidados intensivos. A febre, as cefaleias e a tosse foram os sintomas
mais frequentemente associados a casos de gripe
confirmados laboratorialmente.
Foram estudados os grupos de risco para a maior
gravidade da infeção pelo vírus da gripe: doentes
crónicos e as mulheres grávidas. Foi nos doentes
com obesidade, diabetes e com doença cardiovascular
que se observou a maior proporção de casos
de gripe confirmada laboratorialmente, seguindose
dos indivíduos com doença respiratória crónica
e imunodeficiência congénita ou adquirida. A proporção
de casos de infeção pelo vírus da gripe foi
similar nas mulheres grávidas e nas mulheres do
mesmo grupo etário não grávidas.
A vacina como a principal forma de prevenção da
gripe é fortemente recomendada para pessoas
com idade igual ou superior a 60 anos, doentes
crónicos e imunodeprimidos, grávidas e profissionais
de saúde. A vacinação foi reportada em
17,1% dos casos notificados, valor idêntico ao observado
na época 2016/2017. A deteção do vírus
da gripe ocorreu em 33,6% dos casos vacinados e
sujeitos a diagnóstico laboratorial. A confirmação
de gripe em indivíduos vacinados poderá estar
relacionada com uma moderada efetividade da
vacina antigripal.
A pesquisa de outros vírus respiratórios nos casos
de SG negativos para o vírus da gripe, veio revelar
a circulação e o envolvimento de outros agentes
virais respiratórios em casos de SG. Os vírus respiratórios
foram detetados durante todo o período
de vigilância da gripe, entre a semana 38/2017 e
a semana 7/2018. O rinovírus e o coronavírus humano
foram os mais frequentemente detetados. A
deteção de vírus respiratórios atingiu proporções
mais elevadas nas crianças até aos 4 anos e entre
os 5-14 anos de idade. As infeções por dois ou
mais agentes virais foram detetadas com baixa
frequência.
A Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico
da Gripe, efetuou o diagnóstico da gripe
em 13885 casos de infeção respiratória tendo sido
o vírus influenza detetado em 3722 destes casos.
Em 55% dos casos de gripe foi detetado o vírus influenza
B. Os vírus da gripe A(H3), A(H1)pdm09 e
A (não subtipados) foram detetados em 14%, 12%
e 19% dos casos de gripe, respetivamente. Em
1909 casos de infeção respiratória foram identificados
outros vírus respiratórios sendo o RSV, os
picornavírus (hRV, hEV e picornavírus) e os hMPV
os mais frequentes e em co-circulação com o vírus
da gripe. A grande maioria destes casos foi identificada
nas crianças com idade inferior a 4 anos.
Durante a época de gripe 2017/2018 observou-se
um excesso de mortalidade por todas as causas
entre as semanas 52/2017 e 9/2018 de cerca de
3,714 óbitos (15 % superior em relação ao esperado).
Este excesso foi observado em ambos os
sexos, a partir dos 65 anos de idade, em especial
acima dos 85 anos. As regiões do Norte, Centro
e Lisboa e Vale do Tejo foram aquelas em que se
observaram excessos de mortalidade mais elevado.
Durante toda a época, estimaram-se cerca
de 3.700 atribuíveis à epidemia de gripe. Noutros
países europeus foi igualmente observado um excesso
de mortalidade por todas as causas, possivelmente
atribuível à epidemia de gripe e à vaga
de frio que se fez sentir na europa durante o mês
de fevereiro.
Na época 2017/2018 participaram na vigilância da
gripe em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) 33
UCI pertencentes a 24 hospitais. Durante a época
foram reportados 220 casos de gripe. Verificou-se um aumento apreciável da proporção
de casos de gripe admitidos em UCI entre as semanas
51 de 2017 e 01 de 2018, em que foi atingido o
valor máximo (7,6%). A partir daí o valor decresceu,
com algumas flutuações, aproximando-se progressivamente
da linha de base até à semana 17 (0%),
onde se manteve até ao final da época.
Os vírus tipo A e B circularam em proporções
semelhantes, tendo sido subtipadas 32,5% das
amostras.
Mais de metade dos doentes (56%) tinha idade superior
a 65 anos, 88% dos quais com doença crónica,
sendo a patologia cardiovascular reportada
em 44%.
A proporção de vacinados contra a gripe sazonal
foi de 14% dos doentes, menos de metade do observado
na época anterior.
Foi prescrito oseltamivir a 92% dos doentes, 74%
necessitaram de ventilação mecânica invasiva e
8% teve suporte de oxigenação por membrana extracorporal.
O diagnóstico de gripe foi confirmado no próprio
dia da admissão em UCI, em 52 % dos casos,
sendo já conhecido previamente à admissão, em
21% dos casos.
A duração da hospitalização foi inferior a 9 dias em
cerca de metade dos doentes com alta para o domicílio
e inferior a 8 dias para cerca de metade dos
óbitos.
A taxa de letalidade foi estimada em 26%, valor semelhante
ao das três épocas anteriores.
Este sistema de vigilância da gripe sazonal em UCI
poderá ser aperfeiçoado nas próximas épocas,
reduzindo a subnotificação e melhorando o preenchimento
dos campos necessários ao estudo da
doença.
A época de vigilância da gripe 2017/2018 foi em
muitas características comparável ao descrito na
maioria dos países europeus. A situação em Portugal
destacou-se pelo início do período epidémico
mais tardio relativamente ao inverno anterior, mas
de duração igualmente prolongada. De forma semelhante
aos restantes países europeus o vírus da
gripe predominante foi do tipo B/Yamagata associado
a uma intensidade da epidemia baixa a moderada.
Verificou-se um excesso de mortalidade
por todas as causas, essencialmente no grupo dos
indivíduos mais fragilizados e com idade acima dos
85 anos. O conhecimento das características da
epidemia da gripe, do seu desenvolvimento e dos
vírus da gripe circulantes são essenciais para a implementação
de medidas de prevenção e de controlo
da doença em cada inverno.The National Influenza Surveillance Program ensures
influenza epidemiological surveillance in Portugal,
integrating clinical and laboratory surveillance
components. Clinical component enables the calculation
of Influenza like illness (ILI) incidence
rates, to describe the intensity of influenza epidemic
and evolution over time. Virological component
is based on laboratory diagnosis of influenza
viruses including detection and characterization of
influenza in circulation during each winter.
During the 2017/2018 influenza season, the flu activity
was considered of low to moderate intensity
reaching the maximum value of 78,8 ILI cases
per 100 000 inhabitants in week 52/2017. The epidemic
period occurred between weeks 52/2017
(December) and 7/2018 (February).
Influenza was detected in co circulation with other
respiratory viruses. Influenza B/Yamagata viruses
predominate, like the observed in many other European
countries. In Portugal B/Yamagata was
identified in 57,4% of the laboratory confirmed
flu cases. The influenza A (H1)pdm09,A(H3) and
B/Victoria were also detected in lower numbers.
The influenza B/Yamagata viruses belonged to
clade 3, from a different lineage compared to
the 2017/2018 recommended vaccine strain. The
B/Victoria viruses belonged to clade 1A, although
5 of these viruses were from the new variant group
that presented 2 amino acid deletions in positions
162-164 of the hemagglutinin gene. Influenza A(H3)
viruses showed an increasing genetic diversity,
belonged to 2 distinct genetic groups: 3C.2a1 and
the majority belonging to the 3C.2a2, distinct from
the vaccine strain. The influenza A(H1)pdm09 were
similar to the vaccine strain A/Michigan/45/2015.
All influenza A and B viruses assessed for antiviral
susceptibility showed a normal inhibition for
oseltamivir and zanamivir, except one influenza
B/Yamagata virus that showed a reduced susceptibility
to both neuraminidase inhibitors.
The highest proportion of influenza cases was
observed in the age group of children under 15
years, however due to small number of cases notified
this data should be looked with caution. At
hospital level was also in children, between 4 and
15 years, that were detected a higher percentage
of flu cases. Was in the elderly ( 65) that was observed
the highest hospital admission rate and
even in intensive care units.
Fever, headache, cough were the most frequent
symptoms associated with influenza laboratory
confirmed cases. In the group of patients with
obesity, diabetes, and cardiovascular disease, that
showed higher percentage of influenza cases. In
pregnant women, wasobserved a similar proportion
of influenza cases compared to non-pregnant
women of the same age group.
The flu vaccination was reported in 17,1 % of the
ILI cases, a similar coverage than in previous season.
Among these, 33,6 % was positive for influenza.
Confirmation of influenza in vaccinated
individuals may be related to moderate influenza
vaccine effectiveness in the general population
and individuals over 64 years old. The diagnosis of other respiratory viruses has
shown the circulation and involvement of other
respiratory virus in ILI cases. Respiratory viruses
were detected during entire winter between
weeks 38/2017 and 7/2018. The hRV, hCoV were
detected frequently in addition to influenza virus.
Respiratory viruses were more frequent in children
under 4 and between 5-14 years old.
The Portuguese Laboratory Network for Influenza
Diagnosis reported 13885 cases of respiratory infection
laboratory tested for influenza; from these
were confirmed 3722 influenza cases. Influenza B
was detected in 55,0% of the flu confirmed cases.
The influenza A(H3), A(H1)pdm09 were detected in
low numbers 14% and 12% of the cases, respectivly.
In 1909 cases were detected other respiratory
viruses being the RSV the predominant one, followed
by the picornavirus (hRV, hEV e picornavírus)
and the hMPV. The majority of these viruses were
detected in children under 4 years old.
During the 2017/2018 flu season the number of deaths
from "all causes" was above the confidence
upper limit to 95% from baseline between week
52/2017 and week 9/2018, corresponding to an
excess of 3.714 deaths. Excess mortality was observed
in both genders, above 65 years old, especially
above 85 years. Higher excess mortality
rates were observed at Centro, Norte and Lisboa
e Vale do Tejo regions. During the whole season
3.700 deaths associated with influenza epidemic
were estimated. This was observed during the influenza
epidemic period coincident with the period
of extreme low temperatures. Excess mortality
was also reported by other European countries.
During 2017/2018 were reported 220 influenza
confirmed cases in ICU, in higher number between
weeks 51/2017 and 01/2018. Influenza A and
B was identified in reported cases. More than a
half (56%) of the patients had more than 65 years
old and 88% had a chronic disease, being the
cardiovascular disease, the most frequent reported
in 44% of the cases. 14% of the patients were
vaccinated for influenza. The mortality rate was
26%, similar to the previous season. The influenza
surveillance in ICU could be improved in coming
seasons to reduce the sub-notifications and
to enhance the completeness of epidemiological
data collected for each patient.
The 2017/2018 influenza surveillance season was
in many features comparable to the observed in
most European countries. The situation in Portugal
was characterized by a low to moderate intensity
influenza activity and the prevalence of influenza
B/Yamagata in co circulation with A(H1)pdm09 and
A(H3) viruses. The Portuguese situation was characterized
by a later beginning of the season, with
a long epidemic period. Was observed an excess
mortality rate in the elderly aged 85 and above.
Knowledge of the influenza epidemic characteristics,
its development and circulating influenza viruses
are essential for the prevention and control of
the flu in each winter.info:eu-repo/semantics/publishedVersio