A violência das guerras da ex-Jugoslávia nos
anos 90 do século XX e a complexidade étnico-
-religiosa das suas populações, mostraram a
existência de uma Jugoslávia e de uns Balcãs
num registo histórico bastante diferente da
island of peace da União Europeia. Na maioria
das análises efectuadas pelos media e pelos
académicos das Relações Internacionais prevaleceu
uma tendência para leituras a-históricas
ou interpretações à luz da actual história
europeia/ocidental, pouco esclarecedoras sobre
as raízes mais profundas desses conflitos.
Um dos aspectos mais surpreendentemente
negligenciado foi o das implicações das instituições
sociais e religiosas e da governação política
otomana, na realidade dos países balcânicos
do século XX. Assim, neste artigo, o autor
analisa os principais traços do «cunho otomano»
que moldou os Balcãs durante quase meio milénio,
com especial destaque para o sistema de
governação dos millet e o estatuto dos dhimmi e
as consequências sociais e políticas que daí resultaram
para esta região da Europa