Anexo apenso a: Colóquio. Letras, 191, 2016, pp. 22.O estudo dos metros, formas e géneros literários cultivados por Francisco de Sá de Miranda é uma via de pesquisa primordial para o estudo da renovação da poesia portuguesa quinhentista. A observância da regra coexiste com a introdução de mudanças, derrogações e desvios sistémicos muito significativos. É com grande acuidade que Miranda opera as suas escolhas métricas no seio da tradição bucólica renascentista, quando compõe aquele primeiro conjunto de estrofes que na écloga Alexo é escrito no novo metro italiano, a medida nova, e começa Amor burlando va; muerto me dexa. Usa um modelo métrico de decassílabos e senário, com repetição integral por anáfora do último verso no início da estrofe seguinte nas primeiras quatro estrofes, em canto amebeu e com enquadramento polimétrico. Na verdade, os primeiros versos estrangeiros cantados pelos pastores de Sá de Miranda não são vazados numa forma restritivamente fixa. Diferentemente, é privilegiado um espaço aberto à experimentação. O modelo métrico e o tom elevado desse conjunto estrófico são próprios da canção petrarquesca, e na liberdade com que é cultivado fica rasgada uma via que posteriormente conduzirá à ode.Fundação Calouste Gulbenkian