lisboeta,
ou uma visita às secções dedicadas ao turismo, nas livrarias que registam
maior afluência, permite-nos perceber que os negros não são incluídos na imagem
dominante de Lisboa veiculada pelos guias turísticos da cidade.Umaanálise
mais aprofundada confirma-nos exactamente isso, mas revela-nos também que,
embora extremamente raros, existem guias que apresentam, precisamente, uma
Lisboa negra, africana (ver Agualusa 1999; Rocha, Agualusa e Semedo, 1993; Loude,
2005).1
Não deixa de ser intrigante o facto de aquela imagem de Lisboa, que exclui os
negros, se alicerçar, embora não exclusivamente, sobre elementos—musicais, gastronómicos,
arquitectónicos, etc.,—cujo valor enquanto componentes dessa mesma
imagem é justificado com recurso aos critérios de longa presença temporal no espaço
citadino e ao carácter de típico e único que lhes é atribuído. Então, torna-se pertinente
questionar como é que determinados aspectos desses elementos, designadamente
os relacionados com os negros, cuja presença em Lisboa ultrapassa meio
milénio, estão praticamente ausentes nessa imagem da cidade construída através
dos guias turísticos de ampla difusão? É à sombra deste questionamento que surgem
as narrativas turísticas (Pires, 2003) que procuram incluir os negros na imagem
de Lisboa, jogando com os mesmos critérios utilizados para ditar a sua exclusão.
Assiste-se deste modo a uma luta pelas representações (Bourdieu, 1998; Ulin,
1995; Hall, 1991) de Lisboa que redunda na construção de imagens distintas da cidade:
alfacinha, africana e da diversidade