Refletir sobre a descolonização e sobre os fluxos humanos nos espaços de
encontros e desencontros, de aproximações e de fossos de incompreensão que foram
as colônias e suas respectivas metrópoles exige a observação da história das relações
coloniais. Para o que se propõe neste trabalho cabe então começar por uma
apresentação, ainda que breve, do que foi a relação entre Portugal e Angola.
Apesar dos primeiros contatos entre Portugal e a região que atualmente
compreende o Estado angolano remontarem ao século XV, a conversão de Angola em
uma colônia de povoamento foi um processo iniciado em fins do século XIX, mas que
só ganharia fôlego a partir de meados do século XX (Castelo, 2007).
Em nenhum dos territórios africanos onde o colonialismo de povoamento teve
lugar – África do Sul, Argélia, Rodésia do Sul, Quênia, Angola e Moçambique –
desenvolveu-se um modelo puro de colônias de povoamento, como o dos EUA, por
exemplo. O colonialismo de povoamento praticado no continente africano no século
XX baseou-se simultaneamente no povoamento europeu com caráter definitivo, no
domínio político e jurídico da metrópole sobre as populações indígenas e na
exploração da mão-de-obra e dos recursos locais (Castelo, 2007; Elkins; Pedersen,
2005). Seguindo este padrão, nas colônias portuguesas rigorosas políticas em relação
ao controle da terra e do trabalho das populações nativas coexistiram com a retórica
da promoção de uma mistura racial harmoniosa através da fixação de colonos
metropolitanos nos territórios africanos