No meio ambiente marinho, a apreensão e assimilação das escalas de variação espacial e
temporal constitui condição indispensável na compreensão da dinâmica e da estrutura de
populações. Em sistemas de arquipélagos, estes processos são influenciados por interacções
múltiplas entre os factores físicos do meio como a batimetria, a topografia, a morfologia das ilhas, a
extensão das plataformas insulares e a distância geográfica, associados à variações hidrodinâmicas
de curta e média escala. Esta tese de doutoramento pretende definir e modelar o funcionamento
ecológico do arquipélago de Cabo Verde em termos de estrutura e dinâmica de populações
demersais. O trabalho considera as escalas de ilha, mês e estação do ano e analisa as principais
variáveis que influenciam a variação espacial e temporal da distribuição e abundância das espécies.
O objectivo estabelecido foi alcançado graças a uma abordagem metodológica que privilegia a
interdisciplinaridade. Procura assim optimizar as vantagens e possibilidades técnicas oferecidas em
diversas disciplinas relacionadas, directa ou indirectamente, com a Oceanografia, tais como a
Biologia Haliêutica, a Geoestatística, a Ecologia Numérica, a Geometria Morfométrica e a Física.
Numa primeira etapa, a partir de capturas comerciais de 18 espécies de peixes demersais, este
trabalho põe em evidência a existência de uma estrutura ecológica ligada à distância geográfica e à
batimetria, estes como os principais factores de isolamento físico entre as ilhas. Esta estrutura é
relativamente menos marcante durante a estação fria, entre Dezembro e Abril, do que durante a
estação quente, entre Maio e Novembro. Estes mesmos dados de pesca são em seguida utilizados
para ilustrar a existência de uma estratégia de ocupação do espaço independente da densidade das
populações demersais, dependendo essencialmente do espaço disponível, que assume assim
natureza de factor limitante da dinâmica espacial em sistemas insulares oceânicos. Assim, as
populações das ilhas de plataforma mais reduzida tendem em se distribuir no espaço segundo uma
dinâmica espacial de densidade proporcional em relação à sua abundância. Contrariamente, aquelas
das ilhas de plataformas relativamente largas, revelam uma variação diferencial da densidade,
provavelmente relacionada com a heterogeneidade do ambiente local. Numa segunda etapa, esta
tese descreve a estrutura fenotípica das populações de uma espécie de peixe demersal – a Garoupa
(Cephalopholis taeniops) baseada em variações de forma do corpo. As variações fenotípicas interilhas
são manifestamente significativas e mais expressivas do que as variações intra-ilhas. Estas
divergências morfológicas estão correlacionadas positivamente com o isolamento físico,
corroborando assim a hipótese segundo a qual a fragmentação natural dos habitats no Arquipélago
de Cabo Verde pode ser interpretada em termos de estrutura de populações marinhas. Finalmente,
um padrão hidrodinâmico é descrito par o arquipélago, pondo em evidência estruturas de circulação
turbilhonária assimétrica (ciclónica e anti-ciclónica) e correntes este-oeste e norte-sul, à jusante das
ilhas. Estes padrões de circulação são influenciados pelo isolamento físico entre as ilhas segundo
uma variação sazonal que coincide com a sazonalidade climática e determinam a conectividade
hidrodinâmica entre as ilhas. O estudo destes processos põe em evidência mecanismos de conexão
potencialmente importantes nas trocas de matéria entre ilhas e, consequentemente, na manutenção
das populações ao nível d’ilha e arquipélago. As ilhas orientais são as mais vulneráveis e
representam uma fonte de matéria biológica para as ilhas do norte e para as do sul. Um balanço
« larvar » resultante da definição e implementação de um modelo de deriva Lagrangiana de
partículas fornece importantes elementos de diagnóstico sobre a situação de certos stocks
explorados e levanta um interessante debate sobre a eficiência das estratégias actuais e futuras de
gestão e conservação dos recursos marinhos em Cabo Verde