Plataformização do trabalho e desigualdade social: reflexões a partir da categoria dimensão subjetiva da realidade

Abstract

No contexto da reestruturação produtiva do capital, o mundo do trabalho tem passado por diversas transformações, diante destas, as plataformas digitais já são uma realidade, e a sua interferência e influência carecem de nossa reflexão. Se a princípio plataformas parecem ser meios exclusivamente tecnológicos, deve-se destacar que sobre elas incidem estruturas públicas e privadas que atuam em diferentes campos da vida cotidiana (alimentação, transporte, saúde, relacionamentos etc.). A plataformização do trabalho trata-se de um fenômeno complexo que ultrapassa o uso de aplicativos e plataformas, uma vez que estes são apenas a interface visível de um software, de um programa instalado em um computador ou celular, um campo de interação de um sistema que é econômico, social, político e tecnológico, com múltiplas repercussões. Frente a este cenário o desafio é reconhecer que, se por um lado as plataformas e aplicativos já se apresentam como inegáveis estruturas de trabalho, não podemos mistificá-las deixando que se encubra os processos sociais envolvidos. Ao não mistificar este fenômeno, podemos reconhecer que ele têm significado a exploração e subordinação de uma gama de trabalhadores que passam a ser utilizados por grandes corporações que se valem de aplicativos para obtenção de lucro, explorando camadas populares mais propensas à exclusão e à marginalização social – mulheres, negros e jovens periféricos – indivíduos que historicamente, no Brasil, sempre enfrentaram a face mais dura do capitalismo e continuam a ser subordinados e explorados através deste tipo de trabalho. Esta pesquisa, objetivou compreender a dimensão subjetiva da plataformização do trabalho. A categoria dimensão subjetiva da realidade dá visibilidade à presença dos sujeitos na construção do real, oportunizando a compreensão de que os fenômenos sociais têm uma dimensão de imagens, valores, ideias, afetos, etc., que é complexa, dialética, contraditória. Tomamos esta categoria e a base teórico-metodológica da psicologia sócio-histórica para pensar os imbricamentos existentes entre a plataformização do trabalho e a desigualdade social, relacionando ainda estes aspectos ao capitalismo subordinado e dependente que se instala no Brasil desde o período colonial. Teoria e método para psicologia sócio-histórica são indissociáveis e baseiam-se na epistemologia marxista. Portanto, não se trata apenas de ferramentas, instrumentos a serem utilizados para compreensão da realidade; envolve uma compreensão de mundo, de ser humano e uma concepção de conhecimento. O fenômeno da desigualdade é complexo e intrínseco ao modo de produção capitalista. No caso brasileiro, a desigualdade social se articula, a conexões de raça, classe e gênero, impondo injustiças e ausência de direitos sociais para grande maioria da população. Esta pesquisa contou com cinco entrevistas semidirigidas com diferentes trabalhadores que atuam no campo do trabalho plataformizado. Buscamos, superar o discurso meritocrático-neoliberal, evidenciando como as explicações ideológicas camuflam a produção social e histórica da desigualde, presente sobretudo no mercado de trabalho plataformizado. Encontramos como resultado que a lógica da plataformização do trabalho espraia-se para além do fenômeno do trabalho tornando-se uma prática de mediação da vida na atualidade, que contribui para manutenção de uma série de opressões já presentes no Brasil desde o período colonial, sobretudo o racismo. Finalmente, destacamos que a plataformização do trabalho acelerou, através do uso da tecnologia, a fragilização das relações trabalhistas e a negação da centralidade do trabalho enquanto elemento fundante do humano e essencial ao combate à desigualdade social, tornando-se urgente medidas legislativas sobre o temaIn the context of the productive restructuring of capital, the world of work has undergone several transformations, in light of which digital platforms are already a reality and their interference and influence require our reflection. If at first glance platforms appear to be exclusively technological means, it should be noted that they are influenced by public and private structures that operate in different fields of everyday life (food, transport, health, relationships, etc.). The platformization of work is a complex phenomenon that goes beyond the use of applications and platforms, since these are just the visible interface of a software, a program installed on a computer or cell phone, a field of interaction of a system which is economic, social, political and technological, with multiple repercussions. Faced with this scenario, the challenge is to recognize that, if, on the one hand, platforms and applications already present themselves as undeniable work structures, we cannot mystify them by allowing the social processes involved to be hidden. By not mystifying this phenomenon, we can recognize that it has meant the exploitation and subordination of a range of workers who start to be used by large corporations that use applications to obtain profit by exploiting popular layers more prone to exclusion and social marginalization – women, black people and young peripheral people – individuals who historically, in Brazil, have always faced the harshest face of capitalism and continue to be subordinated and exploited through this type of work. This research aimed to understand the subjective dimension of work platformization. The subjective dimension of reality category gives visibility to the presence of subjects in the construction of reality, providing the opportunity to understand that social phenomena have a dimension of images, values, ideas, affections, etc., which is complex, dialectical, contradictory. We take this category and the theoretical-methodological basis of socio-historical psychology to think about the overlaps between the platformization of work and social inequality, also relating these aspects to the subordinate and dependent capitalism that has been installed in Brazil since the colonial period. Theory and method for socio-historical psychology are inseparable and are based on Marxist epistemology. Therefore, these are not just tools, instruments to be used to understand reality; it involves an understanding of the world, of human beings and a conception of knowledge. The phenomenon of inequality is complex and intrinsic to the capitalist mode of production. In the Brazilian case, social inequality is linked to connections of race, class and gender, imposing injustices and the absence of social rights for the vast majority of the population. This research included five semi-structured interviews with different workers who work in the field of platformed work. We seek to overcome the meritocratic-neoliberal discourse, highlighting how ideological explanations camouflage the social and historical production of inequality present, especially in the platformed labor market. As a result, we found that the logic of the platformization of work extends beyond the phenomenon of work, becoming a practice of mediating life today, which contributes to the maintenance of a series of oppressions already present in Brazil since the colonial period, especially the racism. Finally, we highlight that the platformization of work has accelerated, through the use of technology, the weakening of labor relations and the denial of the centrality of work as a founding element of the human and essential to the fight against social inequality, making legislative measures urgent on the subjectCoordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPE

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