Objectivos: A adesão à terapêutica anti-retroviral de alta eficácia (HAART) é fundamental para o sucesso terapêutico, e uma melhor qualidade de vida (QdV) e saúde mental têm sido reconhecidas como importantes resultados do tratamento anti-retroviral. No entanto, poucos estudos têm associado estas dimensões com a adesão. O objectivo do presente estudo consistiu em avaliar a associação entre adesão à terapêutica, QdV e sintomatologia psicopatológica numa amostra de doentes infectados por VIH, e identificar os preditores demográficos, clínicos e psicológicos da não-adesão.
Método: Um estudo transversal foi realizado nos principais serviços/departamentos de doenças infecciosas dos Hospitais Portugueses. A amostra foi constituída por 762 doentes infectados por VIH. O protocolo de avaliação incluiu as versões Portuguesas do instrumento de qualidade de vida WHOQOL-HIV-Bref e o Inventário de Sintomas Psicopatológicos (Brief Symptom Inventory - BSI).
Resultados: Dos 762 doentes, 133 (17.5%) referiram não aderir completamente à terapêutica. Os doentes do grupo não-adesão reportaram pior QdV. Os testes univariados subsequentes mostraram diferenças significativas em 4 dos 6 domínios de QdV. As excepções foram os domínios Relações sociais e Espiritualidade. Relativamente à sintomatologia psicopatológica, verificou-se igualmente um efeito significativo, ainda que os testes univariados apenas tenham revelado um efeito univariado significativo na dimensão psicoticismo. A regressão logística mostrou que menor idade, maior tempo de diagnóstico e mais tempo a realizar medicação, menor contagem de linfócitos TCD4+, estádio sintomático/SIDA e maior psicopatologia (nas dimensões sensibilidade interpessoal, ansiedade e psicoticismo) estavam associados a maior probabilidade de não aderir à medicação.
Conclusões: Estudos adicionais sobre a adesão à HAART devem considerar a inter-relação entre variáveis demográficas, clínicas e psicológicas. Esta compreensão poderá ajudar a identificar os doentes em maior risco de não-adesão, bem como em maior risco de pior qualidade de vida e saúde mental