Os elasmobrânquios, também conhecidos como Chondrichthyes (peixes cartilagíneos), são
compostos por tubarões, raias, patas e quimeras. Durante as últimas décadas, a procura global de
produtos de tubarão (barbatanas, guelras, carne, cartilagem) levou a uma sobreexploração causando
uma enorme queda da diversidade e abundância de elasmobrânquios. Paralelamente disso, a
expansão e urbanização da costa estão a induzir mudanças comportamentais e destruição de habitats
das espécies costeiras. Sendo estas K - espécies selecionadas (longa duração, baixo número de
descendentes, maturidade sexual tardia, etc...), são sensíveis à degradação dos seus ecossistemas e à
sobrepesca. De facto, como consequência da sobrepesca, a maioria das espécies de elasmobrânquios
são agora consideradas em perigo ou ameaçadas.
No Estado de Sabah (ilha de Bornéu, Malásia), os elasmobrânquios são consumidos localmente ou
exportados para os principais mercados estrangeiros (Singapura, Hong Kong e China), onde a sopa
de barbatanas de tubarão é considerada uma importante iguaria. Os elasmobrânquios não são
espécies alvo das pescarias, sendo capturados principalmente como capturas acessórias (“bycatch”)
em redes de arrasto e redes de deriva. No entanto, os pescadores da pesca artesanal ou pequena
pesca retêm-nos quando os capturam, uma vez que estes representam uma fonte extra de
rendimento. No âmbito do consumo local, o povo malaio utiliza todo o corpo dos elasmobrânquios,
quer para alimentação (carne e barbatanas, diferentes formas de consumo), quer para cuidados
pessoais (cartilagem, dentes, maxilares). Em 2016 foi elaborado na Malásia um Plano Nacional de
Ação para os tubarões (NPOA-Sharks), que visa promover a sua conservação, gestão e
sensibilização através de 7 itens principais. Em 2014, o NPOA-Shark foi melhorado e, este verão,
quando estive na Malásia, o meu orientador local participou num simpósio com o objetivo de
escrever o NPOA-Shark 2. Apesar da fiscalização da pesca, a Malásia, e especialmente o estado de
Sabah, continua a ser um importante mercado asiático para o comércio de barbatanas de tubarão.
Estudos nacionais realizados na última década mostraram que a maioria dos pescadores da pequena
pesca são contra a proibição total da pesca de elasmobrânquios, uma vez que esta faz parte do seu
modo de vida e da alimentação local.
O objetivo do presente estudo é avaliar a abundância e a riqueza específica das populações de
elasmobrânquios em diferentes locais do estado de Sabah. A área principal de análise foi o Parque
Tunku Abdul Rahman (TARP), a Área Marinha Protegida (AMPs) mais antiga do país. Foram também consideradas outras AMPs. Comparações entre abundância e riqueza específica foram
realizadas para as águas protegidas e não protegidas adjacentes aos limites das AMPs consideradas.
Para realizar esta tarefa, foram efetuadas observações utilizando câmaras de vídeo iscadas (Baited
Remote Underwater Video Systems - BRUVS) e censos visuais subaquáticos (Underwater visual
census - UVC). As zonas de amostragem localizaram-se nas linhas de costa de Sabah e incluíram
três Áreas Marinhas Protegidas , incluindo o TARP, e duas áreas sem estatuto de proteção.
Pretendeu-se com este estudo investigar a eficácia do TARP e verificar se uma AMP multiuso é
suficiente para a conservação e a gestão adequada das populações de elasmobrânquios que ocorrem
dentro de suas fronteiras. As abundâncias relativas e a riqueza específica foram estimadas e
analisadas. Além disso, os objetivos deste estudo incluíram ainda a avaliação dos fatores que
influenciam as populações de elasmobrânquios, tais como profundidade, visibilidade ou tipo de
fundo.
Os BRUVS foram lançados a partir do barco nos locais de amostragem, sendo separados por, pelo
menos, 200-300 metros dos locais de UVC, de forma a evitar que elasmobrânquios individuais
fossem atraídos pelo isco e, por isso, registados nos censos visuais subaquáticos. O isco foi
comprado na manhã anterior à sessão de campo, para garantir a frescura, e a mistura foi preparada a
bordo. Para as amostragens com UVC, e uma vez que é particularmente difícil avaliar os
elasmobrânquios durante a realização de um transecto (eles fogem dos mergulhadores), foi utilizada
uma metodologia padronizada, em que , os mergulhadores registaram espécies e abundâncias
durante 3 minutos (correspondente a uma distância de 50 metros), seguindo uma direção linear e
mantendo-se à mesma profundidade. Trata-se de um método semelhante ao método de transecto de
cintura utilizado em diferentes estudos de elasmobrânquios, em que os mergulhadores seguem um
transecto e registam os indivíduos avistados. No presente caso, os mergulhadores nadaram muito
lentamente, a menos de 1m por segundo, perto do fundo. De forma a minimizar a perturbação
devido à presença do mergulhador, foi feito um intervalo de pelo menos 20 metros ou poucos
minutos a nadar antes de iniciar outro registo de transectos. Para cada transecto, as espécies
observadas e a cobertura do fundo (percentagem de recifes de coral, areia, rocha e rublos) foram
registadas numa placa de registo subaquática.
Foram observados um total de 86 elasmobrânquios de oito espécies (cinco de tubarões e três de
raias). As raias representaram 69,7% (n=60) dos avistamentos, e os tubarões 30,3% (n=26). Duas
espécies de raias com manchas azuis (Taeniura lymma, n=41, 47,7% e Neotrygon orientalis, n=17,
19,8%) foram identificadas como as espécies mais abundantes. A espécie de tubarão mais abundante foi o Carcharhinus melanopterus, com 11 indivíduos registados. A maioria dos
elasmobrânquios foram observados nas AMPs (n=73 indivíduos). Apenas 13 elasmobrânquios
foram avistados nas áreas sem estatuto de proteção, oito indivíduos em PPP e cinco indivíduos em
PS. O TARP parece ser o local com a maior abundância e riqueza específica de elasmobrânquios
(n=49, nove indivíduos pertencentes ao grupo dos tubarões e 40 às raias). Foram construídos quatro
gráficos de caixa para representar a abundância e a riqueza específica, por grupo de localização (três
grupos: TARP, outras AMPs e zonas fora das AMPs). Os gráficos de caixa foram construídos por
profundidade: águas pouco profundas de 0 a 12m de profundidade e águas profundas de 12m a 36m
de profundidade (o mais profundo dos transectos).
Realizamos duas Análises de Componentes Principais (PCA) para analisar a abundância e riqueza
específica dos elasmobrânquios. Alguns parâmetros foram testados para avaliar o seu efeito sobre as
duas variáveis. A visibilidade foi claramente o fator mais importante a influenciar a abundância e a
riqueza específica. A proporção do fundo com recife de coral foi o segundo factor com maior
impacto. De facto, o maior número de elasmobrânquios foi observado no fundo de recife de coral,
quando comparado com o número de indivíduos observado em fundo de areia ou cascalho. A tabela
da Análise Fatorial de Correspondência (FCA) mostra onde uma espécie foi mais observada em
função das três diferentes localizações. ta De acordo com esta análise, tal como nos resultados
obtidos para a abundância e a riqueza específica, verificou-se a existência de uma quantidade
significativa de transectos onde não se observou nenhum elasmobrânquio. Para as duas espécies de
raias com manchas azuis (Taeniura lymma e Neotrygon orientalis), as duas espécies de
elasmobrânquios dominantes deste estudo, o TARP é o local de amostragem onde o maior número
de exemplares foi avistado. Paralelamente, estas são as duas únicas espécies encontradas nas três
localizações diferentes, mostrando uma distribuição generalizada dentro das águas de Sabah.
Paralelamente, o tubarão do recife de ponta preta (Carcharhinus melanopterus), a espécie de
tubarão mais comum do estudo, também foi avistado apenas nas AMPs. Os resultados apresentados
comprovam a importância das AMPs para a conservação dos elasmobrânquios. No que diz respeito
à abundância de elasmobrânquios, o TARP é o local onde a maioria dos indivíduos foi observada, o
que se deve relacionar com o maior número de mergulhos (portanto, transectos e avistamentos) em
relação a qualquer outro local. Na generalidade verifica-se que a abundância de elasmobrânquios é maior para o TARP do que para qualquer um dos outros locais de amostragem, principalmente porque o número de transectos não é o mesmo. Quando comparamos os indivíduos do grupo de elasmobrânquios avistados, verifica-se
que a abundância nas águas profundas do TARP é menor do que nas outras duas AMPs, mas, em
geral, é maior em relação às águas desprotegidas. Esses resultados estão de acordo com estudos
anteriores, mostrando a importância das AMPs e santuários de tubarões para sua conservação