Trabalho final de mestrado integrado em Medicina (Psiquiatria), apresentado à Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.A relação entre a religião e a perturbação obsessivo-compulsiva (POC) foi analisada neste
presente trabalho de revisão, sob várias perspectivas diferentes.
Em primeiro lugar, o “mal do escrúpulo” ou “escrupulosidade” foi aqui abordada, enquanto
entidade nosológica obsessivo-compulsiva, ainda em construção, que pretende agrupar as
obsessões e compulsões de conteúdo religioso, cujo fundamento comum é o medo obsessivo de
pecar (e das suas consequências).
Estudos epidemiológicos apresentaram resultados por vezes contraditórios e de difícil
comparação. Porém, duas tendências podem ser verificadas: 1) com base em amostras clínicas, as
provas de que a religião possa ser um factor causal directo da POC são inconclusivas, e 2) a
afirmação de uma associação positiva e complexa entre a religiosidade e o fenómeno obsessivocompulsivo
(sintomas e meta-cognições relacionadas) em pessoas mentalmente saudáveis.
Sob uma perspectiva cognitivo-comportamental, foram estudadas certas meta-cognições
disfuncionais, destacando-se a fusão pensamento-acção relacionada com a moralidade, como
possíveis mediadores específicos na relação entre a religião e a POC (ou escrupulosidade).
Por último, devido às especificidades próprias de um doente escrupuloso, foram abordadas
certas precauções e adaptações a fazer para maximizar a eficácia do tratamento, sobretudo da
psicoterapia. A colaboração adjuvante de uma autoridade religiosa foi também discutida aqui.
Objectivo: Em suma, o objectivo deste presente trabalho é realizar uma revisão da literatura
sobre a relação entre a religião e a perturbação obsessivo-compulsiva (POC).The following paper aims to provide a multilayered review of the relationship between religion
and obsessive-compulsive disorder (OCD).
Firstly, an approach was made in regard of scrupulosity, so as to convey it as an incipient
nosological entity formed by a wide range of religion-related obsessions and compulsions, which
share obsessive fear of sinning (and its consequences) as a common denominator.
Regardless of some data discrepancies, two consistent tendencies were surmised from the
epidemiological studies at hand, namely: 1) based on clinical trials, the evidence that religion can
be a direct causal factor of the POC is inconclusive; and 2) the claim that there is a complex and
positive association between religiosity and the obsessive-compulsive phenomenon (particularly
the symptoms and meta-cognitions which it involves) in mentally healthy people.
By means of a cognitive-behavioural standpoint, a pondering effort was made so as to figure
if certain dysfunctional meta-cognitions (for example, moral thought-action fusion) were likely to
be specific mediators in the relationship between religion and OCD (or scrupulosity).
Lastly, a discussion was made concerning certain precautions and adaptations, which need to
be regarded in the treatment process, especially psychotherapy, in order to tailor to the particular
idiosyncrasies of the scrupulous patient and thusly maximize its overall effectiveness. The subject
of religious counseling was also taken as a matter of discussion.
Objective: In conclusion, the aim of the following paper is to provide a literature review of
the relationship between religion and obsessive-compulsive disorder (OCD)