D. Carlota Joaquina Entre o dever e a transgressão

Abstract

Dona Carlota Joaquina de Borbón, consorte de D. João VI,suscita curiosidade e emoções ambíguas, convertendo‑se numa figura enigmática. Há duzentos anos, enfrentou os desafios do seu tempo, particularmente as incompatibilidades entre a sua condição de mulher e a sua ação na esfera pública. A sua história pessoal foi pontuada por diversos eventos tumultuosos e espelha a complexidade das relações entre as dinastias europeias e entre estas e as colónias americanas, bem como os obstáculos afrontados pelas mulheres naquele período. Instruída na corte espanhola com continuidade na portuguesa, adquiriu uma argúcia e uma cosmovisão forjadas pelos golpes palacianos que testemunhou. Inconformada com a posição secundária que lhe estava reservada, tinha uma agenda política própria, pela qual arrostou inúmeras adversidades. Almejava o exercício do poder, e por ele batalhou, coerente com os seus princípios ideológicos, persistiu em vão. A vária correspondência que chegou até nós demonstra a habilidade de Carlota Joaquina para discernir manobras e cenários políticos por detrás das jogadas diplomáticas nacionais e internacionais. Defensora da autoridade real absoluta, opunha‑ se à ideologia liberal, contrária à sua conceção de governo, o que a levou a confrontar‑se com as exigências de reformas liberais e constitucionais que começavam a ganhar força. Em torno da infanta‑princesa‑rainha‑imperatriz, criaram‑se narrativas e mitos, muitos dos quais instigados por rivais que procuravam manchar a sua reputação, difundido uma imagem distorcida Carlota_Joaquina.indd 9 19/01/2025 19:44:59 maria de deus beites manso | maria fernanda farinha matias 10 da rainha; os opositores aproveitaram‑ se das suas aspirações para lhe atribuírem a responsabilidade de crimes e episódios infames que eles próprios ordenavam, espalhando rumores que a denegriram. Os preconceitos teceram enredos, complexas maquinações, a elite cercava‑ a de injúrias, os adversários atacavam a sua aparência física, e o povo reproduzia rumores, disseminava boatos fantasiosos. Ambiciosa, certamente; de trato difícil, também; um comportamento peculiar em nada consonante com o estatuto da mulher da sua época valeu‑ lhe os ataques de certa historiografia ideologicamente comprometida, teorias e especulações baseadas em estereótipos. Dona Carlota Joaquina, foi vítima de si mesma, de pretender exercer um poder que ameaçava o statu quo vigente em finais do século xviii, inícios do xix. Era incómoda. Hoje, continua a despertar controvérsia. Carlota Joaquina tem sido alvo de especulações, gerando opiniões divergentes acerca da sua personalidade, comportamento e ação pública. Incontestavelmente, Carlota Joaquina marcou a história e a memória coletiva de Portugal e do Brasil, o que nos faz sublinhar a importância de conhecer e interpretar criticamente as fontes primárias e outras narrativas para poder reconstituir o perfil e enquadrar as personagens históricas que contribuíram para modelar o nosso mundo. Com o presente livro, não temos a pretensão de quebrar paradigmas, iluminar recantos obscuros da existência de D. Carlota Joaquina ou de reescrever a sua história. Desejamos, tão‑ somente, entrelaçar os fios dispersos no percurso de mulher, mãe, agente política, tantas vezes descontextualizada e retratada como vilã, numa atmosfera conturbada e revolucionária do período em que viveu. Lançar simplesmente uma luz diferente, proporcionar novo prisma de leitura e propor uma apreciação mais matizada da sua trajetória e do seu legado – sempre, como todos os legados, aberto a novas abordagens interpretativas

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Last time updated on 11/09/2025

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