A região do Bico do Papagaio, situada no extremo norte do Estado do Tocantins, até
meados da década de 1970, era considerada uma área de “terras livres”, receptora
de camponeses nordestinos, que durante muitos anos reproduziam socialmente,
com relativa liberdade e autonomia. Esses camponeses formavam pequenas
comunidades denominadas “centros” e “povoados”, em torno dos quais exploravam
os recursos naturais de forma tradicional por meio do cultivo itinerante de roças de
subsistência e exploração do babaçu, avançando ano a ano sob as áreas de matas.
A partir de 1974, a região passou por um intenso processo de grilagem de terras,
desestabilizando o modo de vida e de trabalho das famílias camponesas da região.
O acesso à terra, nesse período, se resumia ao trabalho “sujeito” nas fazendas
pecuárias na condição de “rendeiros” ou na luta contra os grileiros, resistindo nas
posses e/ou retomar as áreas invadidas, tendo inclusive que recorrer à luta armada.
No final da década de 1980, esse processo de mobilização e disputa pelo espaço
resultou na formação dos primeiros assentamentos de reforma agrária na região,
que se ampliou para mais de uma centena nas décadas seguintes. Levando-se em
consideração a trajetória dessas pessoas, o objetivo geral desta tese é entender as
estratégias de reprodução social desenvolvidas pelos camponeses a partir do
acesso regulamentado à terra no contexto da reforma agrária na região do Bico do
Papagaio. Essa análise foi realizada a partir do estudo de caso de dois projetos de
assentamentos – Grotão e Buriti, localizados no município de Axixá do Tocantins-
TO. Metodologicamente, a pesquisa se caracteriza como uma pesquisa qualitativa
que inclui observações de campo e entrevistas semiestruturadas. A análise dos
resultados demonstra que os camponeses assentados obtiveram melhoria de
qualidade de vida por meio da inserção econômica em atividades agrícolas e não
agrícolas, mas suas estratégias, ainda, têm como referência um “modelo original” de
base camponesa, gestado no período anterior, a partir do qual tomaram suas
decisões, visando à construção de um “modelo ideal” que os mantêm produtores de
alimentos com alto nível de autoconsumo, com relativa liberdade, autonomia e
pouco dependentes de tecnologia, mercado e capital financeiro
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