Imagens e miragens do mundo lusófono nos manuais escolares de história portugueses: visões do passado, presente e futuro

Abstract

Os manuais escolares têm constituído um instrumento privilegiado para a disseminação de narrativas hegemónicas sobre o passado e a construção dos referenciais de alteridade, que rei1cam clivagens abissais entre “nós” e os “outros”. O modo como operam as fronteiras, quais as categorias que em cada momento são convocadas e rei1cadas, quais as que se esbatem e quais as que se reforçam nos processos sociais em que se fundam são alguns dos aspetos essenciais que importa analisar. Nas últimas décadas, diversos organismos internacionais têm salientado a importância do ensino da história para promover a “interculturalidade”, desmontar “preconceitos” e construir uma “cultura de paz”. Neste capítulo, iremos examinar as representações do “mundo lusófono” nos manuais de história atualmente em vigor no ensino secundário em Portugal. A partir de um modelo teórico transdisciplinar, empreendemos uma análise do discurso, tendo em conta texto (verbal e visual) e contexto. Iremos prestar particular atenção às imagens de pessoas e ao modo como estas são usadas para reforçar ou desafiar representações hegemónicas sobre a história nacional e o futuro das “relações privilegiadas” com os países de língua o1cial portuguesa. A partir de um estudo de caso, demonstramos que, apesar da inclusão pontual das “visões do outro” sobre períodos “sensíveis” da história nacional, os manuais continuam a veicular hierarquizações raciais e a reforçar uma visão eurocêntrica e androcêntrica da história, isto é, não se observa uma verdadeira transformação das estruturas narrativas e a descolonização do conhecimento. O mapeamento das ausências e dos silêncios torna evidente um presente marcado pela colonialidade do poder e do saber, e um futuro próximo imaginado como branco e envelhecido.Textbooks have been a privileged instrument for the dissemination of hegem onic narratives about the past and the construction of referentials of identity and alterity. The way borders operate, which categories are invoked and how they are reified at each moment, which ones are blurred and which ones are reinforced in the textbooks are some of the essential aspects that need to be analysed. In recent decades, several international organizations have stressed the importance of history education to promote “interculturality”, dismantle “prejudices” and build a “culture of peace”. In this chapter, we will examine the representations of the “Lusophone world” in the history textbooks currently used in secondary education in Portugal. Based on a transdisciplinary theoretical model, we will undertake an exploratory analysis, taking into account text (verbal and visual) and context. We will pay particular attention to images of people and how these are used to reinforce or challenge hegemonic representations about national his tory and the future of the “privileged relations” with Portuguese-speaking countries. Based on a case study, we demonstrate that, despite the occasional inclusion of “visions of the other” about “sensitive” periods of national history, the textbooks continue to convey racial hierarchizations and reinforce a Eurocentric and androcentric vision of history. The mapping of absences and silences makes evident a present marked by the coloniality of power and knowledge

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